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Defesa que ninguém passa: pressão seletiva sobre a bola é a chave do Palmeiras

A métrica que analisa a eficiência defensiva real de um time de futebol — separando a influência do goleiro e o fator sorte, tão importante no esporte — é o xGA (gols esperados contra). É um índice que mede não quantos gols um time sofreu, mas quantos deveria ter sofrido com base na qualidade das chances que concedeu.

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No caso do Palmeiras, que está com um xGA de 10,3 (ou 0,86 por jogo) e tomou, na realidade, 10 gols (média de 0,83), os dados corroboram uma defesa sólida — aquela que "ninguém passa", como gostam de cantar os alviverdes nas cadeiras do Allianz Parque, que ainda não teve o seu nome mudado.

Carlos Miguel não está precisando fazer milagres, nem o time está sendo azarado. O sistema vem concedendo poucas chances de qualidade, e essas chances estão sendo defendidas de forma proporcional ao esperado. É uma defesa eficiente de verdade, não inflada por um goleiro extraordinário ou pela sorte. O padrão palmeirense de xGA é nível Europa.

Mas o que sustenta toda essa solidez nem sempre é o que se imagina. Ao cruzar o xGA com os indicadores de pressão sobre o adversário da Opta, o retrato que emerge é de um time que opera com volume de pressão mediano — 11º entre as 20 equipes da Série A em sequências de pressão aplicadas por jogo, com média de 3,44.

Longe, portanto, do Flamengo (4,28), do Fluminense (3,89) e até do Remo (4,46), que lideram esse ranking. Nos desarmes no campo adversário — as recuperações de bola no terço ofensivo, chamadas de high turnovers — o Palmeiras aparece ainda mais abaixo, com 56 no total, enquanto Flamengo (99), Santos (90) e Cruzeiro (86) dominam a lista.

A distância média de início de sequências ofensivas completa o quadro. Com 40,4 metros do gol adversário — 15º entre os 20 times —, o Palmeiras está longe de ser um time de linha alta. Opera com o bloco mais recuado do que avançado, abaixo do Corinthians (41,6 m) e muito aquém do Flamengo (45,3 m), que inicia suas jogadas já no campo adversário.

Sucesso no equilíbrio

O paradoxo aparente se resolve quando se entende que volume de pressão e eficiência defensiva não são a mesma coisa. A Chapecoense, por exemplo, tem a maior média de sequências de pressão da Série A (4,46 por jogo) e, ao mesmo tempo, o pior xGA da competição (20,22). 

Pressionar muito pode ser sinal de desorganização — um time que corre atrás da bola por necessidade, não por escolha. Quando a pressão falha, e ela sempre falha em algum momento, o adversário encontra espaço em campo aberto para finalizar em condições muito mais favoráveis.

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O Palmeiras escolheu outro caminho. Pressiona de forma seletiva e pontual — e quando pressiona, é eficiente: das 108 sequências de pressão aplicadas em 12 jogos, 56 resultaram em recuperações no terço ofensivo, uma taxa de conversão de 52%.

Quando recua, mantém o bloco organizado o suficiente para forçar o adversário a finalizar de longe ou em ângulos desfavoráveis, o que explica o xGA baixo mesmo sem pressão intensa.

Há ainda uma camada adicional em se tratando dos comandados de Abel Ferreira. O Palmeiras sofreu 128 sequências de pressão por parte dos adversários — mais do que aplicou. Como se sabe que o Verdão tenta construir desde a sua linha defensiva, com os zagueiros, muitos treinadores optam por dificultar essa saída de bola com frequência.

Com 3,4 passes por sequência — ou seja, o adversário consegue encaixar apenas 3,4 passes antes de ser interrompido ou neutralizado —, o Palmeiras demonstra que escapa das eventuais blitzes com eficiência. O time aceita o risco de jogar com a bola no chão mesmo sob pressão e, até agora, tem dado conta de sair dela.

O Corinthians, melhor xGA da competição com 10,02, percorre um caminho parecido — bloco recuado, pressão moderada, organização posicional. O Flamengo é o contraponto: linha alta, pressão intensa e volumosa, mesmo xGA de 10,31 do Palmeiras.

São três filosofias defensivas distintas convergindo para resultados semelhantes — no caso do Corinthians, dois técnicos diferentes e um ataque inoperante explicam melhor a posição na tabela de classificação.

Sem fórmulas mágicas, além do talento e do acaso, um time eficiente no longo prazo é aquele que constrói coerência entre proposta tática e execução. O que sempre demanda tempo e, também, dinheiro para a busca por jogadores que se encaixem na filosofia de trabalho.

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