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Opinião: O que pretende o Real Madrid com a sua equipa feminina?

Recorde as incidências da partida

"Onde está Florentino? Florentino, onde está?" Os adeptos do Barcelona provocavam enquanto esta primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões feminina se transformava numa exibição categórica ainda na primeira parte.

Há algo de cruel em ver a equipa feminina do Real Madrid perdida em campo em cada Clásico. A única vitória das merengues, na época passada, sob um autêntico dilúvio em Montjuïc, surgiu após um erro grosseiro da equipa de arbitragem, que anulou um golo válido de Jana Fernández já perto do fim, com o resultado em 1-1.

O Clásico tornou-se, assim, sinónimo de domínio blaugrana. Impulsionado por Lluís Cortés, numa altura em que o Atlético de Madrid somava três títulos consecutivos, o Barça transformou-se numa referência do futebol feminino europeu, com cinco finais consecutivas da Liga dos Campeões e um palmarés que não para de crescer.

Em apenas nove dias, as duas equipas defrontaram-se por três vezes, com um registo impressionante: três vitórias catalãs, 15 golos marcados e apenas dois sofridos. O Barça já apontou 104 golos frente ao rival, enquanto Alexia Putellas e Ewa Pajor somam, cada uma, mais golos (15) do que todo o Real Madrid (12).

Nas primeiras épocas, existia alguma tolerância competitiva. Afinal, a entrada das merengues no futebol feminino, impulsionada pelo domínio blaugrana, exigia tempo de consolidação. No entanto, passados sete anos, a diferença mantém-se abissal e até se acentuou nos duelos diretos. Em conferência de imprensa, Pau Quesada reconheceu o colapso mental da equipa, ainda que tenha procurado valorizar a evolução e o trabalho desenvolvido na formação. Ainda assim, a realidade continua a esbarrar em vários obstáculos. Por um lado, o Real Madrid não entrou no futebol feminino para se contentar com segundos lugares na Liga ou presenças nos quartos de final da Liga dos Campeões. Apesar de um plantel teoricamente competitivo, o desfecho repete-se.

Na prática, o Real Madrid continua a investir pouco na sua secção feminina e a dar-lhe escassa visibilidade. O clube prefere pagar multas a comparecer em conferências de imprensa da Liga F, e entrevistas presenciais são praticamente inexistentes, para desagrado dos agentes. No Camp Nou, por exemplo, não havia jornalistas da capital. Dos oito clubes apurados para os quartos de final da Liga dos Campeões, sete atuaram no seu estádio principal - apenas um não o fez.

É importante recordar o impacto que a entrada do Real Madrid no futebol feminino gerou em Espanha. Muitas jogadoras aguardavam esse momento, acreditando que traria maior visibilidade a um campeonato onde, há não muito tempo, figuras como Natalia Pablos enfrentavam limitações impensáveis, como dificuldades até para encerrar a carreira.

Contudo, esse compromisso foi assumido de forma mínima, sem verdadeira ambição ou visão estratégica, e o clube continua a oferecer poucas perspetivas de evolução. As jogadoras raramente são valorizadas, chegando mesmo a cair no anonimato. Como reflexo desse desinteresse - ou mesmo desvalorização - Florentino Pérez nem sequer marcou presença no Camp Nou, algo que se tem tornado recorrente quando se trata da equipa feminina.

Esta quinta-feira à noite, o Camp Nou registou a melhor assistência desde a sua reabertura, com mais de 60 mil espectadores, superando inclusivamente números da equipa masculina. E já lá vai o tempo em que os bilhetes eram gratuitos: os preços variaram entre os 25 e os 120 euros. Mais do que duas equipas em campo, estiveram frente a frente dois mundos que continuam a evoluir a ritmos bem diferentes.

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