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OPINIÃO: Eu era muito contra a convocação de Neymar; até ouvir esta história

Este jornalista aqui, que acompanha futebol desde a Copa de 1994, tinha certeza absoluta que Carlo Ancelotti não deveria incluir Neymar em sua convocação final.

Afinal, a bola que o atacante do Santos está jogando desde sua contusão em 2023 é insuficiente – e sua forma física pior ainda. Fora isso, há outros jogadores no auge que podem ser mais úteis para o time de Ancelotti.

Minha convicção ruiu, no entanto. E foi sem querer, durante uma entrevista com um desconhecido atacante africano da 2ª divisão de Portugal.

Goba Zakpa estava me contando sobre o futebol na Costa do Marfim, quando trouxe uma história que vai muito além das quatro linhas.

Esta história independe do físico de Neymar, ou de sua posição política, ou de sua postura fora de campo.

“Na Costa do Marfim, quando se falava de futebol, todo mundo era Brasil. Antes mesmo de começar a Copa, todo mundo torcia pelo Brasil, sem nem olhar quem ia jogar. Mas depois que a história mudou e craques como Ronaldo, Rivaldo, Romário, Kaká e Robinho pararam, o povo começou a desistir um pouco e a apostar em outras equipes. Lembro de quando era pequeno, quando o Brasil passou nos pênaltis contra a Holanda 1998, foi uma festa total! Todo mundo saiu na rua com a camisa do Brasil. Hoje em dia não se vê tanto isso, mudou muito", contou Zakpa.

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Pergunto se isso se deve à falta de craques do nível de um Ronaldinho Gaúcho. Ele concorda e cita o camisa 10 do Santos.

Já não é a mesma coisa, não é a mesma adrenalina. O Neymar é diferente, era o único que nos dava aquela expectativa, mas quando ele sai da Europa, acaba perdendo um pouco daquele ‘tempero’ do futebol. Hoje em dia você vê os jogos e, para mim, são todos jogadores normais. Mas o Neymar... depois de ver Ronaldinho e o Fenômeno, ele era quem mantinha o sonho vivo”.

Retruco: Vini Jr. ou o Endrick não têm essa magia?

São jogadores muito bons, mas para mim não é igual. Se o Neymar não estiver na seleção, é uma perda muito grande para o futebol. Eu quero e espero que ele seja chamado. Sem o Neymar, o Brasil não vai ter chance, na minha humilde opinião. Ele é diferente", concluiu o atacante de 33 anos do modesto Mafra.

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Não concordo que a ausência de Neymar tire a chance do hexa. Aliás, pode atrapalhar

E acrescento aquele outro problema: não é fácil separar o artista problemático de sua arte – ainda mais com a popularização das redes sociais. 

Mas é possível.

Zakpa não sabe para quem Neymar votou nas últimas eleições e não acompanha o que ele fala no Instagram. Da mesma forma, a maioria dos torcedores mundo afora desconhece a posição política de Messi ou Cristiano Ronaldo.

Acrescente-se dois exemplos meios extremos: quem gosta da música do Michael Jackson é obrigado a esquecer Neverland; quem quer aprender sobre o ser e o tempo precisa ler o filósofo Martin Heidegger, embora ele tenha sido filiado ao partido nazista.

Assim como música pop e filosofia, futebol é momento. Ney está longe, muito longe de seu auge.

Ele vem mostrando, porém, que ainda sabe jogar bola (ele já acumula 16 participações diretas em gols nos últimos 18 jogos disputados pelo Santos). E este jogador faz parte do simbolismo sem fronteiras da Canarinho, cuja mística depende dos craques que a vestem.

No fim, ele é tão fácil de engolir quanto o Zagallo era em 1998, técnico já ultrapassado naquela Copa.

Não simpatizo com o homem (menino?) e sua arte não é mais a mesma, mas sua obra ainda inspira muita gente. Se a magia da Seleção ao redor do mundo está em jogo, que Neymar seja chamado na segunda-feira.

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