Kathellen juntou-se ao Al-Nassr para a época 2024/25 e mergulhou por completo na região e na sua cultura. Numa entrevista à equipa do Flashscore, a defesa falou sobre a realidade do país, a ameaça de guerra que paira sobre a região devido ao conflito entre os Estados Unidos e o Irão, a sua conversão ao islão e ainda as suas expectativas em relação ao futebol brasileiro.
- Construiu praticamente toda a carreira no estrangeiro. Gostava de saber o que a levou a deixar a Europa, onde passou pelo Inter de Milão e pelo Real Madrid, para um projeto totalmente novo na Arábia Saudita, um país ainda em desenvolvimento a nível desportivo, sobretudo para as mulheres.
- Andei um pouco por todo o mundo, mas vou começar pelo início. Nunca joguei como profissional no Brasil, durante muito tempo pratiquei futsal e decidi sair do país graças a uma bolsa de estudo nos Estados Unidos. Passei lá quatro anos antes de assinar o meu primeiro contrato em França, no Bordéus.
Fiquei lá dois anos, depois fui para Itália durante mais duas épocas e, a seguir, rumei ao Real Madrid, em Espanha. Ao longo deste percurso, houve a Seleção, que é um dos maiores sonhos de qualquer jogadora. É aquilo de que mais me orgulho, mas quando regressei ao Brasil depois do Real Madrid, não estava bem fisicamente após o Mundial na Austrália.
Tive uma pequena lesão, não consegui jogar os três primeiros jogos, disputei o último mas sem grande eficácia, não conseguimos passar da fase de grupos. E quando voltei para o meu último ano no Real Madrid, atravessei um período difícil, porque não estava bem. Não estava bem fisicamente, nem espiritualmente, nem psicologicamente. Por isso, passei esse ano a jogar sem verdadeira vontade de estar no relvado.
De regresso ao Brasil, durante as férias, tive de decidir o que fazer a seguir. Surgiu a oportunidade de vir para aqui. Tinha outras opções nos Estados Unidos ou para continuar na Europa, mas pensei: "Porque não?" Um lugar diferente, uma cultura diferente, que procura investir e desenvolver-se no futebol. Muitas vezes, essa vontade, esse pontapé de saída do futebol feminino, é o que traz essa faísca, esse desejo.
Acho que foi a melhor decisão que tomei, porque voltei a sentir vontade de estar em campo. Não sei explicar, mas é uma vontade que já não tinha no meu último ano no Real Madrid.
- Ouvi-a dizer "não estava bem comigo própria, fisicamente, mas sobretudo psicologicamente". Muitas vezes, de fora, julga-se as escolhas de algumas atletas sem se saber o que estão a viver. Mas há sempre o outro lado da história, e mostra bem que precisava desta etapa, porque não atravessava um bom momento a todos os níveis, e no fim, só nós sabemos o que é melhor para nós. Disse que ainda não jogou como profissional no Brasil. Pensa jogar lá?
- Funciona muito à base de oportunidades. Não fecho a porta ao Brasil, mas não há aquele... Por exemplo, quando estava no Brasil, não joguei como profissional. Optei por sair porque, na altura, estava a tornar-me adulta, ia fazer 18 anos, o Santos não existia. E o Santos, na minha época, era o melhor clube. Por isso, adorava voltar ao Brasil, estar perto da minha família, mas não sei se isso vai acontecer.
- Falou em analisar as possibilidades, mas é uma cultura muito diferente. E não falo só da religião, mas também da alimentação, do fuso horário. Tudo isso conta muito na adaptação. Como viveu esta chegada a uma cultura diferente? Já tinha tido algum contacto antes? Alguma experiência?
- Na verdade, não! Tinha contactos, mas com pessoas muçulmanas na Europa. Por isso, não me assustou muito. Mas é verdade que é muito diferente pela língua, sobretudo, não tenho termo de comparação. Pesquisei um pouco sobre a questão da roupa, que é totalmente diferente, mas também não é nada de impossível. Não é outro mundo, é apenas outro país.
São todos humanos aqui e acho que a forma como nos recebem é bastante parecida com a dos brasileiros. Não é assim tão estranho. Esperava algo muito complicado, mas a adaptação foi muito fácil, as colegas receberam-me mesmo muito bem.
- Vemos muitos jogadores a fazer esta transição para a Arábia Saudita devido aos bons investimentos. Isso também acontece no futebol feminino? O seu contrato, a sua transição, foram valorizados ao ponto de a convencer?
- Sim, claramente. Para além do aspeto financeiro, o ritmo dos jogos permite-nos ter mais tempo livre para cuidarmos de nós. Isso é fundamental, porque o calendário do futebol feminino tornou-se uma loucura, nem temos tempo para respirar. É muito exigente para o nosso corpo, sobretudo quando estamos na Seleção e não há pausas. É preciso estar sempre no topo. Vir para aqui permitiu-me respirar, não só financeiramente, mas também fisicamente.
Conversão ao islão
- Como surgiu a vontade de se converter ao islão? E estão em pleno Ramadão... Como se tem adaptado?
- Nasci numa família católica, fui batizada, cheguei a ser acólita, trabalhei na igreja. Sempre tive muita fé, isso ajudou-me muito a sair de casa, a tomar decisões, mas no meu último ano no Real, estava completamente perdida espiritualmente. Já não seguia nenhuma religião em concreto. Gostava de ouvir, ler e conversar sobre todas as religiões, mas não seguia nenhuma à risca.
Tinha essa base católica quando cheguei aqui, e sempre que falava com uma colega ou outra, porque queria saber mais sobre a religião delas, nunca me forçaram. No ano passado, no meu primeiro ano aqui, fiz o Ramadão sem ser muçulmana, e achei esse período muito interessante. Claro que não fazia as orações, porque não era muçulmana. Vivi-o à minha maneira, como católica. E aprendi, li o Corão, conversei cada vez mais com elas.
Em dezembro, quando fui a casa no Natal, falei com o meu pai sobre tudo o que tinha aprendido sobre a religião delas nesse ano. O meu pai olhou para mim e disse: "Estás espiritualmente muito realizada, radiante, luminosa". E quando voltei para aqui, estava convencida de que esta religião que estou a descobrir, e sobre a qual ainda tenho muito para aprender, me faz melhor pessoa.
Escolhi converter-me e tornar-me muçulmana. E sim, este período que vivemos agora, o mês do Ramadão, é muito importante. É um momento de paz total, uma ligação com Deus durante 24 horas.
Quanto aos horários de treino e jogos, aqui na Arábia Saudita, onde 99% da população é muçulmana, é muito mais simples porque tudo é organizado em função do Ramadão. Por isso, não é difícil viver isso aqui.
Guerra no Médio Oriente
- Em que cidade vive? Como está e como viveu este momento tenso com os bombardeamentos no país?
- Vivo em Dammam, perto do Barém, mas sinceramente, a vida aqui é normal. Não houve qualquer choque, são sobretudo os estrangeiros, os treinadores espanhóis e portugueses, e a minha colega Duda, que ficaram um pouco mais preocupados, mas eu estou mesmo tranquila.
Não sei se tem a ver com o meu estado espiritual, mas estou tão serena que até acalmei os meus pais, que estavam mais preocupados: "Não posso fazer nada. Se viajar, é pior, se apanhar um avião, é pior, é mais fácil acertar num avião". E aqui na Arábia Saudita, é muito calmo. Mesmo que ataquem algumas bases americanas, não têm como alvo a própria Arábia Saudita.
Disse aos meus pais que tenho mais receio por eles no Brasil do que por mim aqui neste momento, por causa da "guerra civil" que se vê todos os dias. Sinto-me bem, segura, em paz. Até agora, não aconteceu nada de grave.
- O Al-Nassr caminha para mais um título, é o único campeão na Arábia Saudita. Quais são as principais diferenças entre a sua chegada e o momento atual? E qual é o ponto forte do Al-Nassr para ser sempre favorito?
- É impressionante porque, dos primeiros meses até agora, a evolução das jogadoras é enorme. Do ano passado para este, a competição entre as equipas também subiu de nível, mas o Al-Nassr tem algo especial, não sei dizer exatamente o quê. As jogadoras trabalham muito bem em conjunto.
Apesar de algumas situações internas, a equipa está muito unida. É isso que se vê em campo. Nos dias de jogo, independentemente da situação, mesmo que estejamos a perder 0-1, há sempre força para dar a volta ao resultado. A nossa força não é uma só coisa, são todas as jogadoras.
- Viu-se a convocatória da Adriana para a Seleção, que também joga na Arábia Saudita, e ela sempre foi próxima do Arthur Elias. Você, que vive este ritmo e já conhece as competições europeias, como vê a situação?
- A Arábia Saudita está a evoluir muito, mas ainda está bastante atrás. Isto é tudo muito recente, começou há apenas três ou quatro anos, por isso ainda há atraso. Mas, ao mesmo tempo, está a avançar muito rápido. Claro que não há comparação possível com o futebol europeu ou com os Estados Unidos, onde o apoio é enorme, nem sequer com o Brasil, que continua a crescer.
Obviamente, aqui ainda há muito caminho a percorrer, mas vejo que, ano após ano, não são apenas passos, são saltos em frente. Quanto à Adriana, posso dizer-te que ela dá muito trabalho. É incansável! Todo o mérito é dela, não só por jogar nesta ou naquela liga, porque há jogadoras que vão para campeonatos muito competitivos e não jogam, enquanto a Adriana está aqui, disputa todos os jogos, dá tudo.
O mérito tem de ser também pelo que a jogadora faz, não apenas pela liga. Fico muito feliz por ela, sei que tem energia de sobra, e tenho a certeza de que vai dar tudo. Rezo por ela, acredito que vai representar muito bem e espero que continue assim. Claro que é o dia a dia aqui que conta, por isso que se mantenha saudável e continue a lutar, é isso que ela faz.