Tudo começou em 2022, quando Cesc Fàbregas decidiu, depois das passagens pelo Arsenal, Barcelona, Chelsea e Mónaco, terminar a carreira precisamente na segunda divisão italiana, ao serviço do Como. Ao chegar ao clube, tornou-se também um dos seus acionistas minoritários e começou a colaborar na formação dos jovens, já que, graças aos confinamentos da Covid-19, concluiu antecipadamente as suas licenças de treinador. Assim, passou naturalmente do relvado para o banco – e rapidamente começou a deixar marca.
Agora, com o Como, a quem deu, ao fim de três anos, uma identidade de jogo ofensiva e de posse, sonha com o apuramento para as competições europeias.
"Tomo todas as decisões futebolísticas. As transferências e a prospeção baseiam-se em dados, mas no fim avança aquilo em que acredito a cem por cento. Tenho uma sorte enorme por o presidente me ter dado confiança e competências", disse Cesc Fàbregas numa entrevista ao The Telegraph.
Chega ao centro de treinos, na maioria dos dias, às sete da manhã e, por vezes, só sai depois da meia-noite. O seu cunho está presente até nos mais pequenos detalhes do clube, incluindo na infraestrutura.
"A sala de musculação do centro de treinos foi desenhada por mim e pelo arquiteto, incluindo as paredes envidraçadas. Aprendi isso com o Arsène Wenger – lembrava-me de que a sala de musculação deve ter vista para o campo de treinos, para que os jogadores lesionados possam ver o jogo a decorrer", explicou Fábregas, revelando a sua obsessão pelo pormenor.
Deixou também a sua marca na estrutura alimentar dos jogadores e até nas dimensões do relvado do estádio.
"Disse que precisávamos de um campo mais largo, porque queremos jogar com bola. Por causa de um metro, fizeram de mim um louco nos jornais. Em Itália, diziam que devíamos estreitar o campo para termos vantagem a defender. Mas é precisamente esse metro que faz uma diferença enorme quando se tenta aproveitar a largura do relvado", esclareceu o campeão do mundo e bicampeão europeu.
Admite que foram precisamente os treinadores sob os quais jogou ao longo de 20 anos de carreira que mais influenciaram a sua visão do futebol. As experiências com nomes como Wenger, José Mourinho, Pep Guardiola, Antonio Conte ou Vicente Del Bosque foram, durante anos, cuidadosamente registadas num caderno pessoal.
"Comecei a escrevê-lo por volta dos 22 anos, no Arsenal, antes de ir para o Barcelona, e fui acrescentando ao longo do tempo. No início da carreira de treinador, voltava a ele, mas, com mais experiência, agora só vou lá buscar uma ou outra ideia", assumiu o treinador de 39 anos, acrescentando que dedicou mais páginas a Wenger e Conte.
O lendário treinador francês continua, aliás, a manter contacto com ele. No outono, chegou mesmo a ir ver a primeira vitória do Como sobre a Juventus, para a Liga, desde 1952. "Trocamos mensagens depois dos jogos, dá-me muita coragem", disse Fàbregas, que, aliás, este ano tornou-se no primeiro estrangeiro de sempre a receber o prémio Bearzot para treinador do ano em Itália.
Os excelentes resultados e a evolução da equipa alimentam naturalmente rumores sobre uma possível mudança para clubes de topo, incluindo uma eventual missão de resgate no Chelsea. Embora a Premier League seja também um objetivo de Fàbregas, para já não tem pressa em sair.
"Começámos a nossa caminhada no Como praticamente a partir de menos dez, por isso estamos adiantados em relação ao plano. Um dia, claro que irei para a Premier League. Mas o futebol é imprevisível, por isso vamos simplesmente desfrutar do que estamos a construir aqui, porque é algo maravilhoso", concluiu o jovem treinador espanhol.